23/02/2026 às 16:18 Capa

LIDERANÇA CONSTRUÍDA

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16min de leitura

Por Cleide Carvalho - Fotos Filipe Scotti

Gilberto Seleme - Empresário, articulador e líder industrial, Gilberto Seleme analisa os caminhos que transformaram Santa Catarina em um dos estados mais competitivos do país — e o que ainda precisa ser feito para o próximo ciclo de crescimento.

A conversa com Gilberto Seleme, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), não tem espaço para superficialidades. Quando ele fala sobre indústria, desenvolvimento regional e competitividade, cada palavra carrega décadas de experiência à frente de empresas, sindicatos e articulações que ajudaram a moldar o ambiente econômico catarinense. Não se trata apenas de números ou análises macroeconômicas — embora ele domine ambos —, mas de uma compreensão profunda sobre como se constrói um ecossistema industrial robusto em um país que frequentemente conspira contra seus próprios empreendedores.

Sua trajetória atravessa diferentes setores da economia, sempre com um olhar atento às pessoas e à cooperação como alicerces da sustentabilidade empresarial. “Valorizar as pessoas é o caminho para um negócio de sucesso”, afirma com a segurança de quem aprendeu essa lição na prática. “O espírito de cooperação e a certeza de que não se faz nada sozinho nortearam todas as minhas iniciativas.” É uma filosofia que transcende discursos motivacionais: para Seleme, são as habilidades que os colaboradores colocam em favor do negócio que realmente fazem a diferença entre prosperar e apenas sobreviver.

Essa visão coletiva aparece também em sua relação com os chamados concorrentes. “Nos desafios que são compartilhados com outras empresas do ramo, aprendi que o concorrente pode também ser um aliado”, explica. “Precisamos unir forças para resolver problemas.” É o tipo de postura que revela maturidade empresarial e compreensão estratégica: em mercados cada vez mais complexos e globalizados, isolamento é sinônimo de fragilidade.

A VISÃO ALÉM DA EMPRESA

O entendimento de que desenvolvimento regional exige enxergar além dos portões da própria fábrica não foi uma epifania tardia. Desde muito cedo, Seleme percebeu a importância do associativismo para transformar desafios individuais em demandas coletivas. “Atuo na FIESC há mais de 40 anos e tive cargo de liderança em sindicatos industriais”, relata. “Com a atuação conjunta, conseguimos dar mais peso e a real relevância dos problemas enfrentados.”

Mas sua atuação transcende a representação industrial. Ele entendeu que por meio da união de forças de diferentes segmentos da sociedade — setor público, setor produtivo, comunidade — é possível construir soluções abrangentes que beneficiam a todos. Um exemplo concreto é sua contribuição para a fundação da Uniarp, universidade que em 2025 prestou mais de 100 mil atendimentos à comunidade e oferece mais de 30 cursos entre graduação, tecnólogo e pós-graduação. Outro é o envolvimento com o hospital de Caçador, ao lado de empresários locais que compreenderam a importância dessa participação comunitária.

São iniciativas que demonstram uma visão ampliada de responsabilidade empresarial — não como obrigação ou marketing, mas como investimento genuíno no ecossistema que permite às empresas existirem e crescerem. É uma postura que reflete a compreensão de que o sucesso de uma organização está intrinsecamente ligado à saúde da comunidade ao seu redor. Quando se fortalece a educação local, quando se garante acesso à saúde de qualidade, quando se investe em infraestrutura social, está, na verdade, criando condições para que as empresas tenham acesso a talentos melhores, colaboradores mais saudáveis e uma sociedade mais estável e próspera.


Quando questionado sobre o que diferencia Santa Catarina industrialmente do restante do Brasil, Seleme é direto: diversificação setorial e distribuição territorial. “Temos indústrias de diferentes ramos e cadeias produtivas robustas e relevantes globalmente”, explica. E exemplifica com um caso concreto: a indústria de confecções do estado compra tecidos, linhas, máquinas de corte, soluções de otimização de produção e serviços de lavanderia de outras empresas catarinenses. É um ciclo virtuoso onde o dinheiro circula dentro do próprio estado, gerando emprego e desenvolvimento em múltiplos elos da cadeia.

Essa característica não surgiu por acaso. É resultado de décadas de investimento consciente em diversificação, de políticas que incentivaram o empreendedorismo em diferentes regiões e de uma cultura empresarial que valoriza o fornecimento local. Enquanto muitos estados brasileiros concentraram sua indústria em poucos setores ou em poucas cidades, Santa Catarina apostou na pluralidade — e hoje colhe os frutos dessa visão estratégica.

A distribuição geográfica da indústria é outro diferencial. Apesar de algumas regiões serem mais industrializadas, Santa Catarina conta com 14 polos industriais internacionais espalhados por todo o território. “Isso mostra que a indústria catarinense também é competitiva, a ponto de conquistar mercados exigentes, como o norte-americano e o europeu”, destaca. Essa capilaridade industrial tem impactos diretos na qualidade de vida: reduz êxodos regionais, distribui renda de forma mais equilibrada e cria oportunidades em diferentes partes do estado.

Existe, então, um “modelo catarinense” de fazer indústria? Para Seleme, sim — e ele está enraizado em características culturais e geográficas. “O modelo catarinense está baseado em empresas familiares nascidas aqui e que cresceram apoiando a comunidade”, analisa. “A maioria das grandes empresas do estado surgiram aqui e ganharam o mundo.” BRF, WEG, Tupy, AuroraCoop — são exemplos de organizações que começaram locais e se tornaram players globais sem perder suas raízes. Essa combinação de origem local e projeção global é uma marca registrada do empresariado catarinense.

EMPRESAS FAMILIARES - FORÇA E DESAFIO

A predominância de empresas familiares na estrutura industrial catarinense é, simultaneamente, uma vantagem e um ponto de atenção. “De maneira geral, é uma força, pois o dono tem visão de longo prazo e comprometimento profundo com a empresa que criou ou assumiu”, pondera Seleme. Mas logo acrescenta o contraponto: “Traz consigo um desafio, na medida em que a profissionalização da gestão e boas práticas de governança são essenciais para a sobrevivência do negócio.”

As estatísticas sobre empresas familiares no Brasil são eloquentes e, ao mesmo tempo, preocupantes. Estudos mostram que apenas 30% dessas organizações sobrevivem à segunda geração, e menos de 15% chegam à terceira. Os motivos são diversos: conflitos familiares, falta de preparo dos sucessores, ausência de processos estruturados de governança, resistência à profissionalização. É um cenário que pode destruir em poucos anos o que levou décadas para ser construído.

A FIESC compreendeu essa característica do setor e desenvolveu programas específicos por meio da Academia FIESC de Negócios para contribuir com uma sucessão tranquila. É uma iniciativa que reconhece a realidade: muitas empresas brilhantes não sobrevivem à segunda ou terceira geração por falta de preparação adequada. Os programas abordam desde questões técnicas de governança corporativa até aspectos emocionais e relacionais da sucessão familiar — reconhecendo que, muitas vezes, os desafios mais difíceis não são técnicos, mas humanos.

Mas como profissionalizar sem perder a identidade que construiu o negócio? “A cultura da organização é que determina sua identidade”, responde Seleme. “Profissionalizar a gestão de uma empresa familiar não é romper com a sua história — é dar a ela condições de seguir em frente.” A identidade permanece quando o propósito é preservado e compartilhado com quem chega para somar. “A família continua sendo guardiã da cultura, da visão de longo prazo e das relações construídas ao longo do tempo. A gestão profissional entra para garantir eficiência, competitividade e capacidade de adaptação a novos cenários.”

PESSOAS COMO CENTRO DA COMPETITIVIDADE

Em um mundo cada vez mais automatizado e digital, pode parecer paradoxal colocar pessoas no centro da competitividade industrial. Mas para Seleme, essa é a única equação que funciona de verdade. “Nenhuma indústria cresce de forma sustentável sem gente qualificada, engajada e valorizada”, afirma categoricamente. “Máquinas, tecnologia e capital são fundamentais, mas é o talento das pessoas que transforma investimento em produtividade, inovação em resultados.”

Em Santa Catarina, essa competitividade nasce da capacidade de formar, atrair e reter profissionais preparados para lidar com processos cada vez mais sofisticados, digitais e integrados. “Quando colocamos as pessoas no centro, investindo na qualificação e saúde, fortalecemos as empresas, aumentamos a eficiência e criamos um ambiente capaz de inovar continuamente e competir em qualquer mercado.” É uma visão que contrasta com a mentalidade ainda prevalente em muitas organizações, que veem pessoas como custo a ser minimizado, não como investimento a ser maximizado.

Mas nem tudo são flores. Seleme reconhece que o estado ainda enfrenta desafios importantes na formação de talentos. O principal deles é melhorar e alinhar a formação educacional, desde a base, às reais necessidades da indústria. É por isso que as escolas SESI de Referência contam com a metodologia STEAM, que integra ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática com uma abordagem prática, baseada em projetos. “Estamos fazendo parcerias para levar essa metodologia à rede pública de educação”, informa.

Outro ponto crítico é ampliar o acesso à educação profissional, garantindo que mais jovens enxerguem na indústria uma oportunidade concreta de carreira, crescimento e qualidade de vida. Há ainda um desafio de imagem a ser vencido: muitos jovens não consideram a indústria uma opção atraente de carreira, associando-a a trabalhos repetitivos e ambientes desagradáveis — uma percepção que não corresponde à realidade da indústria moderna, cada vez mais tecnológica, limpa e que oferece excelentes oportunidades de desenvolvimento profissional.

E aqui Seleme aponta exemplos concretos de como essas parcerias podem funcionar: programas do governo estadual em parceria com o SENAI para cursos de tecnologia, notadamente em inteligência artificial, e cursos técnicos para alunos do ensino médio da rede estadual. São iniciativas que reconhecem que a educação profissional não é alternativa inferior à educação superior tradicional, mas um caminho igualmente válido e, muitas vezes, mais alinhado às demandas do mercado de trabalho.

Os números são eloquentes: para atender à demanda da indústria, será necessário qualificar cerca de 953,4 mil trabalhadores até 2027. É um desafio enorme que exige articulação entre setor produtivo, educação e poder público — exatamente o tipo de coordenação que Seleme defende há décadas. Não se trata apenas de quantidade, mas de qualidade: profissionais com competências técnicas atualizadas, capacidade de adaptação e habilidades socioemocionais que permitam trabalhar em equipe, resolver problemas e inovar continuamente.

INFRAESTRUTURA - O GARGALO PERSISTENTE

Quando o assunto é infraestrutura, Seleme não poupa críticas, mas também reconhece avanços. “A infraestrutura ainda representa um dos principais gargalos ao desenvolvimento industrial”, afirma. Santa Catarina conta com bons portos e vem recebendo investimentos privados relevantes nesse setor — ampliações em Itapoá e Navegantes, novos projetos portuários em andamento. São investimentos que demonstram a confiança do setor privado no potencial do estado e a disposição de aportar recursos em infraestrutura de longo prazo.

Mas a malha rodoviária que conecta esses terminais precisa evoluir no mesmo ritmo. De nada adianta ter portos modernos e eficientes se as estradas que levam até eles são precárias, causando atrasos, aumentando custos de manutenção de veículos e, em casos extremos, inviabilizando o escoamento da produção. O programa de recuperação das rodovias estaduais é um avanço importante, mas os corredores logísticos federais seguem aquém das necessidades.

“É fundamental avançar com soluções ágeis e concluir obras estratégicas em andamento, como as duplicações da BR-470 e da BR-280”, pontua. Mesmo rodovias concedidas exigem investimentos urgentes — caso da BR-101 Norte, artéria vital para o escoamento da produção industrial catarinense. São obras que se arrastam há anos, vítimas de problemas ambientais, judiciais e, principalmente, de falta de coordenação e priorização clara por parte do poder público.

Para Seleme, é crucial avançar simultaneamente em soluções de médio e longo prazo: a rodovia litorânea proposta pelo governo do estado, ferrovias e integração modal. São obras que não se fazem de um dia para o outro, mas que definem a competitividade de décadas. A integração modal, especialmente, é um ponto crítico: o Brasil transporta por rodovias uma proporção muito maior de sua carga do que países desenvolvidos, que utilizam ferrovias e hidrovias de forma mais intensiva — modos mais econômicos e sustentáveis para longas distâncias.

E o que precisa ser prioridade absoluta nos próximos anos? “Destravar investimentos — públicos e privados — e garantir recursos para as obras necessárias é uma prioridade. Precisamos, portanto, de segurança jurídica.” É uma resposta que vai direto ao ponto: sem previsibilidade, investimentos de longo prazo simplesmente não acontecem. Empresas não investem bilhões em projetos de infraestrutura se não tiverem certeza de que as regras não mudarão no meio do caminho, de que contratos serão respeitados e de que haverá retorno adequado ao risco assumido.

O setor empresarial está preocupado com propostas que podem tornar o ambiente de negócios ainda pior, como a tentativa de impor, por lei, o fim da jornada 6x1. “Nesse ambiente, o associativismo é mais importante do que nunca”, conclui. São medidas que, embora possam ter apelo popular, ignoram complexidades setoriais e podem gerar consequências não intencionadas, como perda de competitividade e redução de empregos.

INOVAÇÃO QUE VAI ALÉM DO DISCURSO

A palavra inovação foi banalizada a ponto de perder significado em muitos contextos. Tornou-se buzzword de apresentações corporativas, peça de marketing institucional, termo vago que tudo abrange e nada especifica. Mas quando Seleme fala sobre o tema, está pensando em coisas concretas — não em abstrações conceituais.

Para pequenas e médias indústrias, o programa Brasil Produtivo surge como alternativa interessante para elevar a competitividade. “Nem toda inovação precisa ser disruptiva”, lembra. “Muitas vezes, a melhoria de processos, a coleta de dados e a transformação digital podem trazer resultados muito promissores.” É uma observação importante: enquanto muito se fala de inovações revolucionárias, a maioria das empresas — especialmente as de menor porte — precisa mesmo é de melhorias incrementais que tornem seus processos mais eficientes, reduzam desperdícios e aumentem a qualidade.

As indústrias de menor porte que precisam resolver problemas pontuais ou desenvolver novos produtos encontram nos Institutos SENAI de Inovação e de Tecnologia parceiros para esses desafios. Por meio de pesquisa aplicada, desenvolvimento de novos produtos ou processos, serviços laboratoriais e consultoria técnica, eles atuam como ponte entre academia e indústria, focando em soluções customizadas. “Esse modelo de atuação permite que o custo da inovação seja viável para pequenas e médias empresas, que muitas vezes encontram dificuldades para investir em projetos inovadores”, explica.

É uma estrutura que democratiza o acesso à inovação. Enquanto grandes corporações têm recursos para manter departamentos de P&D robustos, pequenas e médias empresas dependem de parcerias para acessar conhecimento especializado, equipamentos sofisticados e metodologias de desenvolvimento. Os Institutos SENAI cumprem esse papel, funcionando como uma espécie de departamento de inovação compartilhado.

A tecnologia já é cultura ou ainda é discurso? Para Seleme, a resposta é direta: “A tecnologia é sobrevivência.” Acompanhar o avanço tecnológico é imprescindível para a sustentabilidade de qualquer negócio, especialmente em um mundo em contínua transformação, com ciclos de mudança cada vez mais rápidos. Não se trata mais de escolher se adota ou não tecnologia — trata-se de escolher a velocidade com que se adapta ou o risco de ser atropelado por quem se adaptou mais rápido.

A indústria já entendeu que precisa aproveitar os benefícios da modernização do parque industrial — como a eficiência energética — e da transformação digital, e está propensa a investir. Mas o uso intensivo de tecnologia demanda mão de obra qualificada e em constante atualização, fechando o círculo que sempre volta às pessoas. De nada adianta investir milhões em máquinas inteligentes se não há profissionais capacitados para operá-las, programá-las e extrair todo o seu potencial.

PRODUTIVIDADE E SEUS ENTRAVES

O Brasil perde competitividade por um conjunto de fatores conhecidos: complexidade tributária, insegurança jurídica, falta de mão de obra qualificada, infraestrutura insuficiente e um Estado que custa caro. Santa Catarina não está imune a isso — afinal, faz parte do mesmo país, sujeita às mesmas mazelas estruturais. Mas consegue minimizar esses obstáculos por meio de uma indústria diversificada, forte cultura empreendedora, proximidade entre empresas e uma capacidade muito grande de adaptação rápida às mudanças de cenário.

“Aqui, o empresário não espera o ambiente ideal para agir”, resume Seleme. É uma característica cultural que faz toda a diferença: enquanto em outros lugares espera-se que o governo resolva tudo, em Santa Catarina o setor privado toma iniciativa. Não é resignação ou conformismo — é pragmatismo. Reconhece-se que o ambiente poderia e deveria ser melhor, trabalha-se para melhorá-lo via associativismo e pressão organizada, mas não se paralisa esperando condições ideais que podem nunca chegar.

Quais práticas catarinenses poderiam ser replicadas nacionalmente? “O associativismo forte, a integração entre indústria, educação e inovação, e o diálogo permanente entre setor produtivo e poder público”, lista. Políticas para fomentar a diversificação do parque industrial, a agregação de valor e o desenvolvimento em todas as regiões, respeitando características e vocações locais. São receitas que não têm nada de mágico ou secreto — são resultado de décadas de trabalho coordenado, de erros e acertos, de construção coletiva.

COMPETINDO COM O MUNDO

Hoje, Santa Catarina compete diretamente com qualquer lugar do planeta, inclusive em mercados altamente exigentes como Estados Unidos e Europa. Em muitos setores, os produtos catarinenses disputam espaço com os melhores do mundo. “Fornecemos produtos que são vendidos ao consumidor final e também insumos e componentes para outras indústrias em cadeias produtivas globais”, detalha Seleme.

Mas ele não romantiza a situação: “O consumidor está a um clique de produtos de qualquer lugar do planeta. Do portão para dentro, somos muito bons no que fazemos. Mas é do portão da fábrica para fora que perdemos competitividade.” O Custo Brasil, problemas de logística deficiente, avidez tributária e medidas que penalizam investimentos são entraves que o setor produtivo precisa superar com muita resiliência. É uma guerra de desgaste: competir com quem tem infraestrutura melhor, tributação mais racional, burocracia menor e acesso mais fácil a crédito.

Santa Catarina está preparada para mercados mais exigentes? “Mercados mais exigentes pedem produtividade, inovação, design, sustentabilidade e parceiros confiáveis. A indústria catarinense tem avançado nesses pontos, mas isso exige investimento contínuo, pessoas qualificadas e visão de longo prazo.” Os 14 polos industriais internacionais do estado são prova dessa capacidade de competir globalmente mesmo com um ambiente de negócios mais hostil que os concorrentes enfrentam. É competir com uma mão nas costas — e ainda assim vencer.

SUSTENTABILIDADE COMO ESTRATÉGIA

Para Seleme, sustentabilidade não é custo — é vantagem competitiva. “Quando bem incorporada à estratégia da empresa, ela reduz riscos e custos, aumenta eficiência e abre mercados.” Em um cenário de pressão pelo cumprimento de metas de redução de emissões, países e blocos econômicos adotam medidas para avançar na descarbonização e cobram de seus parceiros uma atuação mais sustentável.

O mercado consumidor também está mais consciente, pressionando empresas por padrões ambientais claros. Isso se reflete nas cadeias produtivas globais, nas quais a indústria catarinense está inserida, e exige adaptação constante. Empresas que não se adequarem a esses padrões simplesmente perderão mercados — não por imposição regulatória apenas, mas por preferência dos consumidores e exigência de outras empresas que compõem as cadeias de valor.

Como equilibrar crescimento industrial e responsabilidade ambiental? “Não acredito que eles estejam do lado oposto da balança. Na minha visão, eles estão interligados na estratégia”, responde. A indústria catarinense já mostra que é possível produzir mais com menos impacto, investindo em eficiência energética, economia circular, gestão de resíduos e uso responsável dos recursos naturais.

Para que isso avance ainda mais, é necessário um ambiente com segurança jurídica e apoio à inovação. “Quando há diálogo, ciência e visão de longo prazo, eles caminham juntos — e geram valor para a indústria, para a sociedade e para as próximas gerações.” O desafio é evitar que regulações ambientais se tornem burocráticas ao ponto de inviabilizar projetos ou sejam implementadas de forma tão abrupta que não deem tempo para adaptação — criando custos proibitivos sem benefícios ambientais proporcionais.

CRISES E RESILIÊNCIA

A pandemia foi um divisor de águas. “Ela mostrou a importância de gestão, caixa, inovação e, principalmente, das pessoas. Quem conseguiu se adaptar rápido, saiu mais forte”, analisa Seleme. Foram meses de incerteza radical, de regras mudando da noite para o dia, de cadeias de suprimento interrompidas, de demanda oscilando violentamente. Empresas que tinham processos bem estruturados, caixa robusto e equipes engajadas conseguiram navegar a tempestade e, em muitos casos, até encontrar oportunidades.

Outra crise que deixou marcas foi a imposição de altas tarifas de importação aos produtos brasileiros pelos Estados Unidos, especialmente desafiadora para setores em que os EUA eram o principal destino de exportações. “Embora ainda não superada, a crise do Tarifaço deixou claro que a indústria precisa fazer sua parte na articulação com clientes, com associações do setor, com a diplomacia, com governos estrangeiros”, pontua. É o tipo de lição que reforça a importância de redes, parcerias e capacidade de articulação — temas recorrentes na trajetória de Seleme.

O que diferencia quem apenas sobrevive de quem realmente cresce? “Visão estratégica, resiliência e alianças. Quem cresce olha além do curto prazo, investe em pessoas, tecnologia e governança.” E compreende que para prosperar precisa contar com parceiros estratégicos — clientes, colaboradores, universidades. Também precisa estar atento às mudanças no comportamento do cliente, adaptando produtos e serviços conforme as preferências evoluem.

RESPONSABILIDADE ALÉM DO LUCRO

O empresário brasileiro ainda pensa pequeno? Para Seleme, não é bem assim. “O empresário brasileiro, especialmente o catarinense, tem mostrado capacidade de inovação e vontade de competir globalmente. O que muitas vezes falta não é visão, é ambiente de negócios adequado.” É uma distinção importante: o problema não está necessariamente na mentalidade ou na competência do empresariado, mas nas condições estruturais em que ele opera.

E qual é a responsabilidade social real de quem gera empregos? “Gerar empregos de qualidade já é, por si só, um enorme compromisso social. Mas vai além: é investir nas pessoas, ter práticas sustentáveis, agir com ética e contribuir para o desenvolvimento das comunidades onde a empresa está inserida.” É uma visão que foge da retórica vazia frequentemente associada ao termo “responsabilidade social” e vai direto ao que importa: ações concretas, investimento real, compromisso de longo prazo. Não basta fazer doações pontuais ou campanhas de marketing social — é preciso integrar a responsabilidade social à estratégia do negócio.


Legado e propósito

Quando olha para sua trajetória, o que mais importa para Gilberto Seleme? “O que mais importa são a família e as pessoas. Os resultados são importantes, claro, mas eles só fazem sentido quando vêm acompanhados de relações construídas com confiança, ética e respeito.” É uma reflexão madura de quem ocupou posições de liderança por décadas e compreende que títulos e conquistas materiais são efêmeros — o que permanece são os relacionamentos e o impacto na vida das pessoas.

“Ao longo da trajetória, a gente aprende que cargos passam, números mudam, mas o legado fica. E o melhor legado que alguém pode deixar é ter contribuído para o crescimento de pessoas, de empresas e da comunidade.” É uma sabedoria que só vem com o tempo e a experiência: a percepção de que sucesso verdadeiro não se mede apenas pelo que se conquistou individualmente, mas pelo que se construiu coletivamente e pelo que se deixa para trás.

O que você espera de Santa Catarina para a próxima geração? “Uma Santa Catarina industrialmente forte, com qualidade de vida e oportunidades para todos. Um estado que continue transformando trabalho em desenvolvimento e futuro.” É uma visão que sintetiza décadas de trabalho, articulação e construção coletiva — e que serve de norte para as próximas gerações de líderes empresariais.

Gilberto Seleme não é apenas um empresário que deu certo ou um dirigente de entidade setorial. É alguém que compreendeu, desde muito cedo, que desenvolvimento verdadeiro não se faz sozinho — e que estados fortes não se constroem com discursos, mas com gente qualificada, infraestrutura e visão de longo prazo. Em tempos de soluções mágicas e atalhos prometidos, sua trajetória lembra que construir algo sólido exige tempo, parcerias, persistência e, acima de tudo, a capacidade de enxergar além do próprio umbigo.

É uma lição que vale tanto para empresários quanto para governantes, tanto para Santa Catarina quanto para o Brasil. Porque, no fim das contas, desenvolvimento sustentável é sempre resultado de muitas mãos trabalhando em direção ao mesmo objetivo — com humildade para reconhecer que ninguém tem todas as respostas, com coragem para tomar decisões difíceis e com sabedoria para construir pontes em vez de muros.




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