O Brasil aprovou as apostas digitais, inclusive cassinos digitais, mas ainda não aprovou os cassinos físicos. Essa inversão revela mais do que uma incoerência regulatória. Enquanto o jogo físico, passível de controle e capaz de gerar empregos e impostos de forma estruturada, segue travado, o jogo digital, difuso e de difícil supervisão, expandiu-se rapidamente.
Durante décadas, o argumento moral impediu o debate sobre cassinos. Esse moralismo desapareceu diante das bets. O resultado é um sistema contraditório: restringe-se o que pode ser organizado e libera-se o que é disperso.
Nesse contexto, Santa Catarina surge como exemplo claro de oportunidade.
A legislação em discussão abre espaço para resorts integrados com cassinos e unidades adicionais distribuídas regionalmente. Em um estado com forte vocação turística e infraestrutura consolidada, isso pode representar um salto de escala.
Santa Catarina, aliás, já teve experiências que apontavam nessa direção. O Marambaia Cassino Hotel, em Balneário Camboriú, e o Laguna Tourist Hotel nasceram com vocações alinhadas a esse modelo. Não se trata de uma ideia exótica, mas de uma vocação interrompida. Afinal, cassinos existem no mundo inteiro, com exceção de países muçulmanos e de Cuba.
Nos principais mercados globais, como Las Vegas, Macau e Singapura, o jogo representa cerca de 30% da receita total. O restante vem de hotelaria, eventos, gastronomia, espetáculos e entretenimento. O cassino funciona como âncora econômica, viabilizando investimentos contínuos em cultura, esportes e grandes produções.
É por isso que grandes eventos, shows internacionais e congressos se concentram majoritariamente no hemisfério norte.
Santa Catarina, com estruturas desse porte, poderia entrar nesse circuito.
Resorts integrados ampliariam o turismo, com 20 bilhões em investimentos iniciais, fortaleceriam o calendário de eventos e criariam novas oportunidades para a produção cultural e esportiva local, ao mesmo tempo em que gerariam empregos formais e ampliariam a arrecadação.
Mas o Brasil corre o risco de errar novamente. Deixamos as pessoas de menor renda à mercê da ludopatia e os mais abastados jogando em cassinos ilegais e no exterior.
A tentativa de aprovar cassinos no mesmo pacote que bingos e jogo do bicho cria insegurança jurídica. Resorts integrados exigem investimentos bilionários, poucas licenças e regras estáveis. Ao vinculá-los a atividades mais instáveis, afasta-se o capital de longo prazo.
Santa Catarina ganharia muito mais com um modelo claro, separado e bem regulado, que permitisse à sociedade e aos municípios decidir, dentro de critérios rigorosos, sobre sua implantação.
Já erramos ao liberar as bets sem organizar o setor. Não é necessário repetir o erro.Antes de acertar, é preciso parar de errar.
Separar cassinos de bingos e jogo do bicho, retirando os riscos de instabilidade, é condição para transformar uma oportunidade em desenvolvimento real.
Para Santa Catarina, isso significaria mais turismo, mais cultura, mais eventos e mais protagonismo.
É uma chance concreta de transformar potencial em realidade e andar, sem medo e com responsabilidade, ao lado dos países desenvolvidos.

Vinicius Lummertz