Estar em Paris durante a Semana de Haute Couture é testemunhar um tempo diferente. Enquanto o sistema da moda gira cada vez mais rápido, a alta-costura insiste em desacelerar. Aqui, o luxo não está na urgência, mas na precisão; não no excesso, mas na intenção. Nesta temporada, mais do que vestidos espetaculares, vi uma couture que fala de processo, narrativa e maturidade criativa.
Paris reafirma seu lugar como o palco onde a moda pode, novamente, ser arte — sem pedir desculpas por isso.
Novos olhares, novas direções
A estreia de Jonathan Anderson na alta-costura da Dior foi, para mim, um dos movimentos mais interessantes da temporada. Em vez de recorrer ao impacto fácil, Anderson escolheu a inteligência. Sua coleção constrói uma relação delicada entre o legado da maison e uma visão contemporânea de forma e matéria. Os florais — tão ligados à história de Dior — aparecem menos como ornamento e mais como estrutura, quase esculturas têxteis que nascem do corpo.

Há um silêncio elegante nessa couture: volumes pensados, bordados que exigem proximidade e uma feminilidade que não busca aprovação externa. É uma Dior que não tenta impressionar; ela convence.
Na Chanel, Matthieu Blazy inaugura um novo capítulo com uma leitura mais sensorial da maison. A leveza é protagonista: transparências, tecidos etéreos e um trabalho minucioso de bordado e plumas criam uma atmosfera quase onírica. Não é uma Chanel literal — é uma Chanel sentida. O rigor técnico do ateliê permanece intacto, mas agora dialoga com imaginação e movimento.

A couture como espaço de narrativa
Algo ficou muito claro nesta edição: a alta-costura voltou a ser um território de expressão pessoal dos designers. As coleções não são apenas exercícios estéticos, mas discursos visuais. Cada casa parece perguntar: o que significa criar hoje?
Armani Privé, fiel à sua linguagem, apresentou uma elegância que resiste ao tempo. Silhuetas longas, paleta sofisticada e um domínio absoluto da construção reafirmam que a verdadeira modernidade pode estar na constância. Já maisons como Valentino exploraram volumes dramáticos e uma couture mais emocional, onde o peso do tecido e a teatralidade convivem com sofisticação extrema.

Natureza reinterpretada
A inspiração natural surge de forma conceitual. Flores, folhas e formas orgânicas deixam de ser estampas e passam a definir a arquitetura das peças. Bordados em relevo, volumes esculturais e tecidos moldados criam uma couture que dialoga com o mundo natural sem recorrer ao óbvio.
Transparência como linguagem
Organza, tule e gaze de seda dominam a temporada. A transparência aparece como gesto de leveza e modernidade, quase sempre sobreposta a estruturas mais rígidas, criando contraste e profundidade visual.
Movimento e fluidez
A silhueta rígida dá lugar a vestidos que acompanham o corpo. Capas longas, drapeados contínuos e peças que se transformam ao caminhar mostram uma couture pensada para o gesto, não apenas para a imagem estática.
Artesanato elevado
O trabalho manual é levado ao limite. Bordados minuciosos, aplicações tridimensionais, plumas e texturas complexas reafirmam o valor do tempo — um luxo cada vez mais raro. Aqui, o acabamento não complementa a peça: ele é a peça.
Paleta suave com pontos de impacto
Marfim, nude, off-white e tons pastel criam uma base etérea. Em contraste, surgem cores profundas e metalizados usados com precisão, nunca em excesso.
O verdadeiro papel da alta-costura
A haute couture não dita tendências comerciais imediatas — ela dita ideias. Funciona como um laboratório onde conceitos nascem antes de escorrerem para o prêt-à-porter e para o luxo contemporâneo. Nesta temporada, Paris mostrou uma couture mais conciente, menos espetacular por obrigação e mais comprometida com significado. Em um mundo saturado de imagens, a alta-costura nos lembra que o luxo mais potente ainda é aquele que exige tempo, silêncio e olhar atento.